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12
Mar
2020
A depressão, a meta e o otimismo

A depressão, a meta e o otimismo

Faça um desejo.

O que você pensou? Provavelmente alguma coisa que te falta. Certo? Pensou em algo que não tem e quer conquistar.

Já reparou como sempre desejamos o que não temos?

Se lógica do mercado e da sociedade é a lógica da meta, o que buscamos exige necessariamente um passo a mais. A meta é a cenoura amarrada na frente do burrinho. O burrinho corre empenhado, mas a cenoura corre junto com ele, sempre um pouco mais adiante. Temos aqui, a ideia de que a felicidade está sempre prestes a ser conquistada e de que a situação atual nunca é tão satisfatória.
Quando estamos trabalhando, queremos férias. Quando estamos sem emprego, queremos trabalho. Os casados suspiram pela vida de solteiro e os solteiros querem se casar. Os que moram com a família querem ir morar sozinhos e os solitários sentem falta da família. Por que sempre queremos uma situação que não é a que estamos vivendo?

Somos os burrinhos e queremos a cenoura que não alcançamos!

Isso poderia ser bom, pois causa o movimento. Mas, por outro lado, por que presenciamos tanta depressão nos dias atuais?

Ora, estar deprimido é constatar uma verdade: quando conquistamos o que desejamos, nosso desejo já estará um pouco mais à frente, como que fugindo de nós. Nessa corrida sem fim aparece um cansaço antecipado, um sentimento de frustração e impotência que impedem qualquer tipo de ação. O deprimido, ao contrário do burrinho, teve um momento de lucidez ao verificar que essa cenoura não chegará nunca. O problema é que, diante disso, ele recua.

Mas, não se engane. Todo deprimido um dia também já foi o burrinho otimista, buscando a meta com vontade, o que chamamos de "sangue no olho e faca nos dentes". Ele deu tudo de si, leu livros de auto-ajuda e decidiu que tudo seria melhor, basta acreditar. Ele investiu uma energia incrível nessa busca e estava certo de que um dia ele iria alcançar a felicidade e de que o sol finalmente iria brilhar pra ele.

O que ele não percebia era que o sol já estava brilhando e que a felicidade estava ali, de certa forma, acessível. Como fazer então para não se deixar iludir como o burrinho e não brecar como o deprimido? Como manter a energia pulsante em movimento, a potência criativa, sabendo que a cenoura da felicidade não chegará?

Esta é uma tarefa difícil, mas não impossível. Estamos inseridos num contexto que alimenta a estratégia do burrinho e, consequentemente, a do deprimido também.

Quando estamos na escola, queremos passar pro ensino médio. No ensino médio, fazemos toda a projeção para o vestibular. Daí finalmente entramos na faculdade! Então queremos nos formar, depois queremos ter um emprego. Estamos no emprego e queremos uma promoção. E assim, sempre será uma sucessão de desejos, de metas que nos fazem caminhar, mas que nos mostram também que não há tesouro atrás do arco-íris.

A solução desse dilema pode ser simples. Ela está na aposta que cada um faz.

Diante desse impasse, tomamos uma decisão. Num ímpeto, jogamos a mochila do outro lado do rio para atravessar. Uma vez a mochila lá, não há o que fazer, só resta entrar no rio e chegar do outro lado. Não se sabe se a grande cenoura estará ali, talvez sim, talvez não. Sustentar o desejo é isso. Apostar mesmo sem ter garantias de que será a escolha acertada, de que haverá uma recompensa. A razão do esforço não está no fim, mas nele mesmo. A força que nos impulsiona pode ser, em si, a própria alegria de viver e caminhar.

Loren Costa

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