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21
Abr
2020
Angústia em tempos de confinamento

Angústia em tempos de confinamento

Com a crise do coronavírus e a recomendação para ficar em casa, percebemos diferentes tipos de reações: da tranquilidade à agitação, passa-se por várias fases ao longo desse período que ninguém sabe quando e como irá terminar.

O que não falta é informação sobre o estresse causado e a angústia de pessoas que se sentem presas. São incontáveis as receitas sobre como manter a "saúde mental" indicando o que fazer no tempo ocioso: dançar, fazer ginástica, cozinhar, pintar, ver fimes, lives, séries... Chega a quase não dar tempo para tanta coisa! Será mesmo que é o simples fato de ficar em casa que angustia? Será que o problema está no tédio, na falta do que fazer?

Escutando meus pacientes nesse período de quarentena, percebo que não. As questões continuam as mesmas, o que muda é a intensidade. A gente sabe bem o que gosta de fazer quando fica em casa porque é tudo o que sonhamos quando estamos cumprindo as exaustivas jornadas de trabalho. Então o que é mais difícil nesse espaço de confinamento?

Parece que o mais difícil no fato de estar confinado é o surgimento da incerteza. É diante do desconhecido que o sujeito adota diferentes posturas: alguns negam, dizem que é invenção, outros, também radicais, dizem que é o fim dos tempos. Estratégias singulares para tentar tamponar a fenda que se abre nesse momento. Essa é a grande questão. A brecha que essa pandemia abre é que ela coloca em questão todas as escolhas do sujeito (e da sociedade) até então: seus desejos, seus feitos e as consequencias, suas verdades veladas pela correria do dia a dia. Se até então aquela "máquina automática" de condução da vida fazia uma espécie de proteção em que não há tempo para pensar e refletir, de repente, isso falha, a cortina cai e o mal-estar dos bastidores aparece. Ficar em casa já não é mais da mesma ordem, ou seja, descansar para voltar a trabalhar na segunda-feira. Trata-se de um certo "cantinho do pensamento" onde tudo exige ser revisado: por que eu estou nesse trabalho? Por que comprei tudo isso? Por que me casei com essa pessoa? Qual é o hobby do meu filho? Existe sintonia nessa parceria? O que eu quero para a mim? Em que situção está minha vida agora? E se tudo acabar amanhã? E se não acabar?

É deste modo que toda essa vertigem social, econômica e política, traz aspectos que antes ficavam imersos, invisíveis e que vem à tona, ficando escancarados e sem nomeação. A angústia parece vir então daí, do intervalo que se abre para questionar o desejo e pedindo algo de uma reinvenção, o que dá muito trabalho ao invés de ser um descanso.

E pra você? O que muda e o que permanece em tempos de confinamento?

Loren Costa

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