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06
Fev
2020
Do efêmero e etcetera

Do efêmero e etcetera

O efemeróptero é um inseto simpático que dura 24 horas. Muitos insetos, de modo geral, duram só alguns dias.
É o momento de vir, ver, curtir a vida e concluir.
É como ter o tempo marcado pra encher o carrinho de supermercado, se esbaldar e pronto, acabou. Uma festa que dura um dia. Pluft, plaft, zum! Breve como um lapso, um ritmo, um rapto.
A vida do efemeróptero poderia ser só leveza ou só beleza. Porque não lhe resta tempo de pensar nas consequências, de ter que economizar pra comprar a casa dos sonhos, não dá tempo nem de sonhar, na verdade. É no ato, viver, agora, só agora. Sem reticências, nem vírgulas, um ponto de exclamação, no máximo!
Já outros seres, como nós, duram muito, ah, dura a vida... Por aqui temos tempo de chegar ao fim da festa e perguntar: e agora? Temos tempo de enfrentar fila de banco, de preencher currículo Lattes, temos tempo de engordar com o bolo de chocolate que comemos ontem, de ficar de ressaca. Temos tempo de envelhecer... de perder pessoas que amamos, as conquistas que alcançamos, tempo de pensar no que deveríamos ou não ter feito, temos muito tempo pra refletir qual é a melhor decisão e ainda mais pra se arrepender depois. Temos tempo para sermos felizes, mas é a tristeza que não tem fim. Temos tempo de rir, chorar e ainda sobra um baita tempão... um tempo desconhecido, etceteróptero que fica zumbindo no ouvido: o que você vai fazer? Como vai ser? Quando?
E não temos nenhuminha resposta prévia. Só o tempo poderá dizer...
Mas, para o efemeróptero, não é assim. Nem entra nessas questões, que bobagem. É só brisa, sopro, suspiro. Vida que flui, que age, que dança. Que voa, acasala, reproduz e morre. Grilo tranquilo.
Eu sei, estou idealizando a vida do pobre inseto, talvez por ter demasiado tempo. Talvez ele também suspirasse, em suas breves 24 horas, por uma vida mais longa em que pudesse desejar, fazer planos, construir. Olhar os álbuns de fotografia e se emocionar, reunir os amigos que não vê faz mais de mês, sentir saudade. O efemeróptero não poderia jamais fazer um "antes e depois", mudar o corte de cabelo, se renovar. Isso não parece nada interessante, de fato... Ele não pode criar vínculos, não pode amar, não pode fazer arte. Não pode ter um dia maravilhoso porque só há este dia. Sua vida é necessariamente um acaso.
Tudo o que é belo e perfeito, já diria Freud, é propenso à decadência, à finitude. O bom disso tudo talvez seja podermos ser efemerópteros de vez em quando, e ainda continuar vivendo. Nesse meio tempo nos surpreendemos, e só há o encanto da beleza evanescente no meio do cotidiano repetitivo. Porque viver continua sendo etcetera.

Loren Costa

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