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10
Dez
2020

"Então é Natal e o que você fez?"

(Superando o supereu)

O mês de dezembro pode ser, para muitos, um momento de angústia. O cansaço de um ano inteiro, que poderia ser um motivo de pausa e alegria, fica ainda mais pesado quando toma uma perspectiva superegóica. As reuniões de família, as retrospectivas, as metas para o próximo ano, tudo pode se transformar numa avalanche de cobranças, comparações e exigências cruéis que vêm não necessariamente do outro, mas de você mesmo. Até a famosa música da Simone se transforma num martírio: "Então é Natal e o que você fez?"

O mundo está cada vez mais cheio de imperativos: comer de forma mais saudável, fazer algo para melhorar o planeta, produzir bem, postar fotos felizes nas redes sociais, ser boa mãe/pai, estar jovem, trabalhar, comprar... no meio dessa bomba de exigências, fica difícil discernir o próprio desejo.

É interessante então tomarmos o conceito psicanalítico de "supereu" para entendermos o que está em jogo nesse mecanismo. Como o próprio nome já indica, há uma instância no "eu" que se pretende "super". Freud se inspirou no super-homem de Nietzsche para pensar essa instância como herdeiro do Complexo de Édipo. Para Freud, o supereu se relaciona com a lei e com os ideais. Ou seja, o que antes os pais faziam para ensinar - vigiar, punir, julgar - passa a ser introjetado pelo próprio sujeito como forma de entrar na civilização e buscar os próprios ideais.

Se fosse só isso, estaria tudo bem. O problema é que normalmente o sujeito não se baseia nos pais para se nortear em relação às próprias leis. Ele se baseia na construção imaginária que fez desses pais, na suposição do que um "super-pai" quereria dele. É então que a neurose ganha combustível e o processo começa a ficar injusto com ele mesmo e, claro, com o outro também.

Como indica Lacan, o que está em jogo aí é um imperativo de gozo que jamais será cumprido, porque sempre, nessa lógica do supereu, é possível exigir um pouco e ainda mais. É interessante notar que quanto mais impecável somos, mais nos cobramos e nos torturamos. Temos, portanto, uma gula pulsional insaciável e amoral que pode se tornar cruel e implacável.

Nesse sentido, o objetivo da análise é justamente de fazer o gozo condenscender ao desejo. O que isso significa? Significa que o ideal pode servir mais como norte, projeto, motor da caminhada e menos como opressão, constrangimento, vergonha e culpa.

Por exemplo, eu estou certa de que existe, para a pergunta: "e o que você fez?", uma resposta com um número considerável de coisas feitas. O problema é quando ela se transforma no seu oposto: "e o que você não fez?" e mostra sua face devoradora. Mas, justamente, isso não deveria ser um problema! O que resta a ser feito é também motivo de projetar o novo, de novo, não é mesmo?

Então é isso que eu desejo para todos nós: um ano novo repleto não apenas de realizações, mas também de coisas não realizadas. Pra que tenhamos sempre motivos para desejar o próximo e o próximo ano.

Por um 2021 possível!

Loren Costa

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