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24
Ago
2020
O amor: descanso ou motor da loucura?

O amor: descanso ou motor da loucura?

A psicanálise é a cura pela via do amor, dizia Freud. Isso significa que o que está na base da relação de transferência é o amor inconsciente que o analisando dirige ao analista. Mas, afinal, o que buscamos quando amamos?

Quando amamos, afirma o pai da psicanálise, visamos conseguir para o nosso próprio ego, a perfeição que idealizamos no outro. Ou seja, acreditamos que o outro detém aquilo que precisamos, que o outro tem o que nos falta. Logo, o amor gira em torno de uma suposição.

E se a pergunta angustiante que nos ronda ao longo da vida é: “quem, sou eu?” é o amor que dará a ilusão de capturarmos essa resposta. Ilusão porque esse sentimento de completude pode até durar um certo período, mas ele se furta como se estivesse brincando de esconde-esconde, presença e ausência em que ora conseguimos dar ao outro o que lhe falta, ora não fazemos absolutamente ideia do que o outro finalmente quer de nós. Mais presença, menos presença, mais cuidados, menos atenção, mais mistérios? O que isso quer dizer? É então que retornamos à pergunta inicial e agora com força maior: “quem, afinal, sou eu e o que o outro quer de mim?”

E embora encontremos aos montes os coaches e aconselhadores indicando sobre “o que fazer para ser feliz no amor”, a verdade é que não há proporção calculável, não se pode prescrever nada sobre o desejo do outro e sobre o próprio desejo. É preciso então tomar o amor como o impossível de se calcular por antecipação, impossível estipular um saber a priori. Não há bússola nem receita.

Assim, entre perguntas e supostas respostas, há os que recuam diante do amor, os que brincam de gato e rato, os que admitem sua fluidez e os que ainda suspiram que um dia ele chegará em forma de alma gêmea, tampa da panela ou metade da laranja.

De todo modo, é importante entender que o amor aparece ali onde há uma cisão do ser, uma insustentável leveza. Logo, qualquer tentativa de preencher essa hiância traz um peso que deixa tudo ainda mais insustentável. Nesse sentido, dizemos que o amor feminiza, pois ele abre uma brecha ali onde esperava-se justamente completar.

Há que se inventar uma forma, tateando, testando, buscando as chaves de abertura e de fechamento para fazer do amor, não um motor das perturbações, mas como dizia Guimarães Rosa, um “descanso na loucura”.

Loren Costa

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