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01
Mai
2022
O pai e o Pantanal

O pai e o Pantanal

O pai e o pântano

Há quase 10 anos sem televisão, resolvi assistir à novela Pantanal pelo globoplay. O interesse veio talvez pelo momento que estou vivendo, talvez pelas lembranças que tenho dessa novela em minha infância, pelos comentários ao redor. De fato, estou impactada pela força das imagens, a beleza das músicas, mas, dos vários aspectos que me chamaram a atenção, vou eleger apenas dois.

O primeiro é a questão do pai. Tema caro à psicanálise. Tema que nos atravessa há milênios, em nossa sociedade ocidental, monoteísta, marcada pela estrutura patriarcal, como se a única referência fosse a orientação ao pai, de modo que ficamos orbitando em torno desse nome e dessa pai-versão.

A novela já começa com esse eixo central. Um pai e seu filho. Ou melhor: um pai, seu filho e a forte referência do que é ser um Leôncio, peão, macho, que consegue enlaçar o boi, chamá-lo pelo som do berrante e ganhar o respeito dos demais.

Em dado momento, entretanto, esse pai subverte a sua referência quando tem um encontro contingente, de corpo e de alma, algo místico, com um boi marruá, um boi selvagem.

A partir de então, ele resolve desaparecer, desolação de seu filho, José Leôncio.

Das três principais religiões monoteístas abraâmicas, vemos que cada uma lida de uma forma com o messias, mas que elas se complementam de certa maneira.

No judaísmo, o verdadeiro profeta, o salvador, ainda não chegou.

No cristianismo, o profeta Jesus é morto, crucificado diante de todos. O que vem de encontro à neurose descrita por Freud, em que o pai morto torna-se ainda mais vivo, pela via da culpa e da suposição de saber.

No islamismo, Maomé, o último profeta, desaparece em grutas e no alto de montanhas para receber a revelação. Como o velho Joventino.

Percebam que cada um de nós passa, de alguma forma, por essas construções: a idealização de um pai que ainda vai chegar e nos salvar; a constatação de que esse pai desapareceu e que portanto, cabe a nós a responsabilidade; a culpa por esse pai morto que deve ser vivificado em nossos projetos de vida, como uma espécie de gratidão tardia.

José Leôncio, por sua vez, engessou essa figura do pai numa referência inflexível - como muitos, religiosos ou não, o fazem. Quis transmitir ao seu filho e a duras penas, o nome do pai pela via da repetição, como se tivesse o dever de perpetuar essa tradição, como se o império e herança construídos fossem palpáveis, imutáveis e pudessem ser repassados sem transformação.

O filho, entretanto, recusa essa expectativa do pai. Numa postura feminizada de não saber quem é e o que realmente deseja, Joventino (que carrega o nome do avô), traz a dúvida e o enigma no lugar da certeza paterna. E traz a brecha da diferença, da singularidade, a possibilidade de invenção - tão difíceis ao pai.

Mas, se não for ao pai, qual é a referência a seguir?

Ora, e não é essa a pergunta que a sociedade tem se feito? E eu acho mesmo muito importante que o faça. E o velho Joventino? A que ele se endereça afinal?

Esse é o segundo aspecto que achei mais interessante.

O velho Joventino, após a experiência contingente de sair pela mata procurando o boi selvagem e conseguir olhar nos olhos dele, faz uma espécie de dança diante do boi, tem uma epifania e a partir daí passa a se orientar... pela natureza.

A natureza não aparece apenas como pano de fundo (e que pano de fundo) da novela Pantanal. A natureza tem uma função determinante. Entretanto, trata-se de uma determinação sutil, silenciosa, com muito menos alarde que a função paterna. Para se orientar por ela, é preciso enfrentar os próprios medos, “virar bicho”, sincronizar-se com essa força que não responde nada, mas que ainda assim é capaz de orientar. O rio e as águas fazem o contorno do Pantanal e consentir com o mistério parece abrir para uma outra perspectiva. “Você não tem nada, é tudo ilusão”, diz o velho que se compara com o vento e que aparece e desaparece como um “mestre dos magos” com falas enigmáticas que orientam desorientando. Deixar-se guiar pelo desconhecido, pelas águas, pelo contingente, pelo mistério e pelo não saber parece ser a recomendação de muitos sábios, gurus, filósofos... Difícil mesmo é abrir mão do pai salvador e colocar essa conduta em prática.

Não sei como vai se desenrolar a novela, que bom que não sei. Mas a mim ela tem revelado uma lição importante: o boi, o saber, a vida, o amor, o pai, o filho... não se pegam pela força.

É no que escapa que a vida encontra seu destino, é com a presença do vazio que alguma coisa se enlaça.

Loren Costa

Loren Costa

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