(31) 99228-4604
Agende sua consulta
Novidades
08
Set
2020
Suicídio: a que será que se destina?

Suicídio: a que será que se destina?

A questão sobre qual é o sentido da existência humana é das mais enigmáticas. Tomamos então emprestadas as palavras de Freud no texto “Além do Princípio do Prazer” (1920):

“Prontamente expressaríamos nossa gratidão a qualquer teoria filosófica ou psicológica que pudesse responder a isso. Contudo, sobre esse ponto, nada nos é oferecido.”

Qual seria a função da vida, seu objetivo? E qual seria a função da morte e do querer morrer? Neste mesmo texto, Freud investiga essa questão e afirma que existe uma força em todo organismo vivo que visa retornar ao estado anterior, ou seja, tornar-se inorgânico, de forma que “o objetivo de toda vida é a morte”. (p.49)

Entretanto, com a evolução das espécies, esse caminho entre a vida e a morte foi obrigado a fazer um percurso e efetuar um caminho de transformação antes de atingir seu objetivo. Freud assinala assim, que a pulsão de autoconservação e a pulsão de vida têm o propósito de “garantir que o organismo seguirá seu próprio caminho para a morte” e não uma abreviação forçada dessa finalidade.

É genial. O objetivo seria a morte, mas possuímos esses impulsos que são os “guardiães da vida” que mantém nossa existência diante de qualquer obstáculo “e o que nos resta é o fato de que o organismo deseja morrer apenas de seu próprio modo, naturalmente”. (p.50) Ora, sabemos que o corpo não quer morrer! Todas as células são programadas para se regenerar, se recuperar, para não acabar.

Subjetivamente, é a pulsão de vida enquanto essa pulsão de ligação (ao mundo, ao outro, aos projetos) que permite prolongar essa jornada em direção à morte. O que faria então com que essa pulsão de vida enfraqueça a ponto de o sujeito visar o autoextermínio? O que leva alguém a pensar que não existe mais possibilidade de prazer e transformação? A que se destina o suicídio?

É em Luto e Melancolia (1917) que Freud faz essas perguntas. Então ele constata que o ego só pode consentir em se autodestruir se tratar-se como um objeto. Um objeto que representa e condensa todos os outros objetos do mundo externo e dirige seu sadismo ao próprio eu. É como se o sujeito dissesse: como não posso acabar com o mundo, acabarei comigo mesmo”. Seriam então nessas duas situações – de paixão intensa e de suicídio – que o objeto exterior se torna mais importante que o próprio eu, caracterizando as pulsões sexuais e de morte conjugadas.

Diante disso, se trata-se, como afirma Freud, de uma ferida aberta, devemos tratá-la ao invés de exterminá-la. É possível fazer uma elaboração das feridas, das perdas, é possível voltar a ter vontade de viver e de se projetar. Claro que a pergunta sobre a que se destina nossa existência continua sem resposta. Mas, tanto melhor. É justamente nessa abertura e nesse enigma que se encontra uma certa liberdade, um ponto de invenção. Talvez a solução esteja em fazer uma aposta nesse percurso entre o nascimento e a morte, que possa produzir algo singular, algo próprio. Isso contudo, só é possível quando abrimos um espaço de simbolização das nossas vivências. Esse é o objetivo de uma análise, de não recuar frente ao desejo. Afinal de contas, é justamente porque a matéria vida é tão fina que se torna tão importante a rosa pequenina. Vivamos.

Loren Costa

Comente essa publicação