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29
Mai
2020
Um refúgio imaginário

Um refúgio imaginário

Buda, era filho de Maya (nome que significa ilusão) e príncipe do Nepal. Criado preso até os 18 anos vendo apenas as belezas da vida, um dia fugiu e resolveu andar sozinho pela cidade. Nesse momento, acabou entrando em contato com o sofrimento humano, a doença, a miséria e a morte. Esse encontro deixou uma impressão muito forte em sua mente. Percebeu que toda aquela beleza e riqueza em que vivia não passavam de ilusão. Seus pais quiseram lhe "proteger" da dura realidade, mantendo-o numa "bolha do imaginário", essa que cria uma unidade e nos protege da dureza das coisas. A partir dessa constatação, decidiu sair do palácio e recolher-se à solidão da floresta, onde se engajaria em profunda meditação até atingir a iluminação.

Desde a infância passamos por várias dificuldades. O bullyng na escola, as difíceis extrações de dente, a sensação de não entender tudo o que se passa. E desde cedo também somos embalados pelas "anestesias" do imaginário como o brincar e suas estratégias de faz-de-conta, os filmes e histórias fantásticas de heróis e de e finais felizes, somos embalados com a ideia de papai noel ou fada madrinha.

É então o imaginário que tem essa capacidade de maquiar a realidade. Diante da realidade muitas vezes insuportável, nos recolhemos ali onde a perfeição se mostra como miragem. E o que seria a neurose senão essa mentira contada a si próprio para tentar escapar ao conflito?

Logo, o imaginário torna-se um recurso-bálsamo que gera alívio. É o imaginário que nos dá a ilusão sobre o ser como unidade, ainda que nossas células e nossas ideias estejam em constante transformação. É ele que faz parecer que a vida e o tempo seguem alguma linearidade. É o que faz suspirar de paixão por um amor ou admirar o mestre que "tudo sabe". É ele que permite criar um perfil nas redes-de-peixe sociais. É ele que faz idealizar um objetivo e depois se tornar escravo desse ideal. É o imaginário que nos faz sentir pertencentes a um grupo e é ele também que nos faz sentir excluídos dele. Ele nos faz endeusar um presidente, um líder espiritual ou qualquer figura que represente alguma autoridade. O imaginário, por ser um artifício cosmético, esconde tudo o que possa falhar ou apresentar defeito. E é justamente por isso que não se sustenta por muito tempo. Ainda que tente esconder as falhas, elas sempre retornam pela fresta. Ainda que alguém encontre a fuga da realidade nesse "país das maravilhas", ali tem sempre uma armadilha à espera para "cortarem-lhe a cabeça". O imaginário deixa necessariamente um ponto cego, obscuro, sem resposta.

É então que, no espelho, ele começa a dizer o que não está bom. Insuportável constatação. E é assim que o imaginário passa rapidamente de alívio-bálsamo a terror-perseguidor. O mesmo alívio do alucinógeno, do chocolate, do amor ideal, podem se tornar fonte de ansiedade, ameaça e angústia.

Então, como "dosar" esse imaginário? Em tempos de pandemia, presenciamos tantas catástrofes, pessoas morrendo, tanta crueldade e egoísmo ao mesmo tempo, ficamos tentados à nos recolher numa espécie de palácio escondido de Buda ou então em seu retiro meditativo.

O imaginário é necessário para continuamos tendo forças, são as medidas paliativas das quais dizia Freud em "O mal-estar na cultura" (1930): "A vida, tal como a encontramos, é árdua demais pra nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis" (FREUD, 1930, p. 83) Assim, para suportá-la, diz Freud, não conseguiríamos passar sem construções imaginárias como, por exemplo, a religião, a arte, ou as substâncias tóxicas, como se fossem um "amortecedor de preocupações". Talvez a meditação também entre nessa lista, diria Buda. De todo modo, percebemos que qualquer medida adotada para escapar das pressões da realidade e se refugiar num mundo próprio, apresenta riscos de ali se perder e de não mais conseguir retornar.

A boa dose do imaginário, cada um encontra a sua. Sim, por vezes, precisamos de ajuda pois esse saber-fazer não é evidente. O objetivo é que possamos ainda e sempre, procurar desenhos em nuvens, observar as borboletas, fazer poemas de amor, se embelezar. O belo também está no imaginário e sem ele não suportaríamos a dor da guerra, da morte, da miséria. Como diz Galeano, temos o direito a sonhar, o direito ao delírio. Mas que essa fuga não não seja alienada a ponto de não mais se sensibilizar ao sofrimento do outro e também ao próprio sofrimento. Manter aí uma certa pitada de angústia, é isso que nos tira do esconderijo e logo, que é capaz também de causar alguma transformação.

Loren Costa

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